segunda-feira, 11 de agosto de 2008

A prostituição

Os caminhos da Comunicação Social perderam o sentido. Fala-se da era da Comunicação e a Internet veio aprofundar essa lógica, permitindo a veiculação de mensagens à velocidade da luz. A invenção de Gutemberg (os tipos móveis de chumbo fundido, que conduziram a um avanço nos trabalhos impressos e sua massificação) parece hoje pouco relevante. Parece.

As palavras multiplicam-se, as notícias viajam mais rápidas do que a luz, mas, paradoxalmente, o papel dos jornalistas perdeu a essência. Na era da Comunicação, esses profissionais chegam a vestir a pele de fantoches ao serviço de estratégias de marketing. O poder que conquistaram perdeu-se. São subjugados. Dominados. As entrevistas vendem-se. As palavras passam pela censura dos 'interesses editoriais', esse lápis azul encapuzado. E calam-se.

Outrora respeitado e até venerado, o jornalista é, nos dias que correm, e feitas as óbvias excepções, um soldado ao serviço de outros interesses que não os de informar. A medíocre missão de arrancar palavras a Cristiano Ronaldo é uma das imagens mais ridículas das transformações no exercício desta profissão.

Os caminhos trilhados pelo jornalismo são culpa dos seus actores. Que classe? Existe classe? Que solidariedade? Por que não se gerou um movimento nacional de jornalistas que apoie uma redacção despedida de forma ilegal?

Esta medida da administração da empresa detentora de O Primeiro de Janeiro é baseada em contornos maquiavélicos. Sentaram-se à mesa e lançaram o desafio: “Como nos vamos livrar desta gente?” Ouviram-se propostas, escolheu-se o timing (Agosto é um bom mês, para evitar grandes ruídos políticos…) e fez-se o normal: procurar um buraco na lei que obrigue o Tribunal a dar razão aos oportunistas.

E quem se mexe para erradicar a ‘prostituição’ das redacções, a selvagem lei da sobrevivência, que permite às administrações lidar com os seus fantoches? A competência é um critério? Ou dirige quem ‘dá a pata’? As vozes dissonantes são silenciadas? Os silêncios calam a ilegalidade? Os pontos de interrogação poderiam ser substituídos por pontos finais?

O jornalista já não é o detector de notícias. As notícias chegam às redacções através das agências. As notícias são compradas. Notícias low-cost. Onde está o jornalismo de investigação? Onde está o furo jornalístico, a cacha? Talvez esta seja uma visão pessimista. Mas não se pode esperar muito mais de Alguém que escreve que a invenção de Gutemberg parece hoje pouco relevante…

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